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Faraz Jaka no BSOP Recife
Faraz Jaka

Em colaboração com Guilherme Schiff

Não é sempre que um grande nome do poker mundial vem ao Brasil e realmente se entrosa com a comunidade. Em sua recente passagem, o craque Faraz Jaka fez de tudo um pouco.

A participação do americano começou no BSOP Recife, onde marcou presença no maior circuito da América Latina. Vindo para São Paulo, Jaka decidiu então conhecer os jogos mais descontraídos: os famosos home games.

De assistir a um jogo de futebol no estádio a curtir noites de poker regadas a bebidas, risadas e muita falinha, o profissional conheceu o melhor lado do poker brasileiro e não se decepcionou.

A passagem de Jaka pelo país ganhou espaço no SuperPoker. Além de participar de uma transmissão ao vivo com Vitão Marques, ele concedeu uma entrevista exclusiva, onde comentou os detalhes de sua viagem, seu começo no poker, o fim do November Nine, o crescimento dos High Roller e Super High Rollers pelo mundo e muito mais! Confira.

Faraz Jaka no BSOP Recife
Faraz Jaka no BSOP Recife

Qual a sua impressão sobre o Brasil?
As pessoas brasileiras são muito diferentes dependendo da região, mas uma coisa todos têm em comum: são as pessoas mais apaixonadas que eu já vi. A paixão pode ser pelo poker, pela comida, pela bebida, mas o fato é que existe muito amor nas pessoas e eu gostei muito disso. São muito competitivas e ligadas ao esporte.

O que achou dos jogadores daqui?
As pessoas gostam de falar, falar e falar. Eu nem consigo contar quantas vezes aqui já me levantei e comecei a falar alto na mesa (risos), mas acho que isso é o poker no Brasil. Nos Estados Unidos é muito diferente, você ganha a mão e precisa ficar quieto, porque é falta de educação comemorar, enquanto aqui você pode pular, brincar com o adversário e dar risada.

Como você vê a evolução da comunidade brasileira do poker?
O que eu vejo aqui é que em qualquer torneio eles tiram fotos, têm troféus, fazem um ranking, e isso tudo é muito legal. Eles realmente tratam como uma competição e são focados nisso, não é como se fosse só um jogo de apostas, realmente é tratado como um esporte, é diferente.

Como você escolheu os home games que participaria aqui?
Nos três home games de que eu participei, eles me mandaram vídeos incríveis, mostrando os lugares, e eu só consegui pensar “tenho que ir para esses jogos”, mesmo que fosse só pela farra.

Você sabia que o poker é tão grande no Brasil?
Eu sabia que o poker é grande no Brasil e esse foi um dos motivos pelos quais decidi vir para cá, mas não sabia exatamente a magnitude do jogo. Apenas sabia que as pessoas eram apaixonadas e que o jogo era grande por aqui.

Quem é o melhor jogador do mundo para você no momento?
Honestamente, eu sou a pior pessoa para responder essa pergunta, porque não acompanho as notícias de poker (risos). Algumas vezes me sento na mesa e pergunto para amigos “quem é aquele cara?” e eles ficam surpresos por eu não saber quem é. Quando sou eliminado de um torneio, eu não acompanho, apenas vou fazer caminhada, conhecer pessoas, jogar um home game.

Então eu realmente não tenho ideia de quem seria o melhor jogador atualmente. Eu sinto que se eu responder, nunca será a resposta certa, então realmente não tenho como escolher um.

Faraz Jaka na inauguração do Espaço Copag
Faraz Jaka na inauguração do Espaço Copag

O que você pensa do crescimento de eventos High Rollers e Super High Rollers pelo mundo?
Eu acho que isso polariza o mercado. É bom no sentido que permite que as mesmas pessoas apareçam em destaque diversas vezes, o que ajuda a criar grandes estrelas, mas também cria uma noção falsa da realidade. Isso porque a maioria daqueles que jogam os eventos de US$ 100 mil só jogam por 10%, 20%, 30% do prêmio. Você pode ver alguém com US$ 20 milhões em resultados, mas na verdade apenas uma pequena parte disso foi para o bolso do jogador.

Eu acho que as pessoas veem esses números e acham que todos os jogadores têm milhões e milhões de dólares, então é meio enganador para as pessoas, se elas entram no poker por essa razão e depois descobrem que não é bem assim. É o tipo de coisa que anima as pessoas no curto prazo, mas pode desapontá-las no longo prazo.

Acho que um jeito mais honesto de se vender o poker é falar sobre o estilo de vida. Você pode não conseguir fazer milhões, mas pode ganhar alguns milhares, ou centenas de milhares, e se sustentar, sem ter um patrão, podendo viajar, podendo trabalhar de cueca (risos), isso ainda soa incrível, vamos vender essa história para as pessoas.

Como você começou no poker?
Eu comecei nos dormitórios da faculdade, jogando partidas de US$ 5 ou US$ 10. No começo era apenas uma forma de tentar ganhar algum dinheiro. Comecei a me sair bem, procurar jogos maiores, mas não havia jogos maiores. Decidi montar meu próprio jogo, mas ainda assim não conseguia ação suficiente. Então eu convenci um amigo a ir de último minuto para Las Vegas e comecei a jogar cash game lá, jogar online, enfim, o poker passou a ser uma grande parte da minha vida universitária. Tínhamos uma república de nove quartos chamada “Poker House”, onde organizávamos jogos, festas, foi uma época bem legal.

O que você achou do fim do November Nine?
Eu achava o November Nine bem legal, ajudava a construir a expectativa para a final, e acredito que essa foi a intenção deles, atrair patrocínios e tal. Eu realmente não sigo o lado empresarial, então às vezes não estava valendo a pena para eles. Acho que é fácil para consumidores julgarem, mas quando você não sabe os números e a situação por dentro é difícil de avaliar.

Como você vê a evolução do poker pelo mundo?
Quando eu comecei, o poker estava em franco crescimento e a proibição nos Estados Unidos fez ele diminuir lá, apesar de crescer em outros lugares do mundo. Eu acredito que em muitos países estão buscando a regulamentação, o Estados Unidos voltando seria uma coisa gigante. O Brasil é um mercado único, tudo é diferente aqui, então acho que o mercado precisa se adaptar às necessidades dos jogadores daqui.

O que você pensa sobre o meio social do poker?
Acredito que é muito fácil fazer amigos no poker, porque o jeito mais fácil de se tornar amigo é conhecer alguém que consegue entender o que você está passando. Às vezes você tenta falar sobre poker com outras pessoas e elas não entendem direito, você pode cair em 14º em um torneio e elas te parabenizam (risos) e você não consegue explicar porque aquilo não faz sentido a menos que elas tenham passado por algo assim.

Como você se mantém atualizado no poker hoje em dia?
Acredito que todos precisam ter um grupo no Whatsapp com amigos onde possam falar sobre estratégia e também compartilhar vídeos, livros, novas técnicas. Também é importante assistir vídeos de estratégia e acompanhar fóruns, acho que se você fizer essas três coisas consegue se manter atualizado, mas acredito que o mais importante é ter um círculo de amigos que você possa conversar.

O que você ainda precisa conquistar no poker?
Eu nunca ganhei um evento grande. Muitas pessoas pensam que eu ganhei, já fui Jogador do Ano, vice-campeão, terceiro colocado, mas nunca ganhei um título de WSOP, WPT, EPT (agora PokerStars Championship), então esse é o objetivo que ainda tenho na minha carreira.

Faraz Jaka no BSOP Recife

Quais seus planos para a WSOP esse ano?
Eu sou uma pessoa muito organizada, então já tenho há meses a minha planilha com os eventos que pretendo jogar. Basicamente, jogarei quase todos os eventos de No Limit Hold’em, estarei lá durante toda a série e provavelmente voltarei para o Brasil logo após isso.

Você participou da Global Poker League no ano passado. O que achou da competição?
Eu fui o manager do San Francisco Rush e acho que da perspectiva dos espectadores, talvez os jogos não tenham sido tão empolgantes e acredito que a GPL quer realizar mudanças para melhorar isso. Mas da perspectiva dos jogadores foi divertido demais! O meu time estava super envolvido, a ideia de ter alguém para torcer, comemorar, conversar estratégia, é muito divertido. Espero que eles consigam dar uma boa experiência para o espectador pois adoro a ideia de jogar poker em times.

O que você acha dos cada vez mais populares canais de poker no Youtube, como o de Doug Polk?
Falando do Doug Polk, eu acho que ele é um jogador polarizado. Ele apresenta seu material de uma maneira que as pessoas amam ou odeiam, mas acredito que isso é algo bom para ele. Aqueles que não gostam dele talvez estejam buscando uma personalidade diferente. Uma vez eu li uma frase que dizia: “se você sempre está fazendo tudo de forma que todos gostem de você, não está sendo verdadeiro consigo mesmo”. Acho que o mais importante é sempre ser quem você é, é impossível ser querido por todas as pessoas.

Teremos um canal seu no futuro?
É possível sim! Estou começando a criar mais conteúdos, vídeos engraçados, então existe a chance de eu expandir para algo assim.

Você é adepto da meditação e se orgulha do estilo de vida “sem-teto”. Como isso mudou sua vida?

Os dez dias que passei em um retiro de meditação na Tailândia, sem falar, foram dez dos dias mais fantásticos da minha vida. Isso me ensinou quanta coisa acontece em nossas mentes sem nos darmos conta, além de vários truques sobre atenção, consciência. Eu dormi por dez dias em uma cama de bambu no chão, tomei banho em uma bacia de água gelada, vivi de forma muito simples, e nunca estive tão feliz depois disso. Faz você perceber que não precisa de carros chiques, dinheiro e tudo mais para ser feliz, precisa apenas fortalecer sua mente. Isso ajuda muito para quando você está numa downswing ou desapontado com o poker, eu tento me lembrar que não preciso de nada além da minha mente.

Quais são seus principais amigos brasileiros?

Dos profissionais com certeza Akkari e Felipe Mojave, que são meus amigos, mas agora que estive no Brasil conheci muitas outras pessoas e espero poder passar mais tempo com elas.