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Dealer

A gente sente quando alguma coisa importante acontece pelo tempo que ela persiste nas conversas entre as pessoas, seja algo de repercussão nacional ou acontecimentos em esferas menores, na nossa família, grupo de amigos, no trabalho, no bairro, no condomínio. Assim está acontecendo com o episódio número 7 do “The Podcast” do 4bet Poker Team, um dos mais importantes times profissionais de poker do país, que foi ao ar carregado de um conteúdo misógino, machista e sexista.

O episódio começou a repercutir quase uma semana depois de ter sido postado, não se sabe ao certo por quantos ouvidos complacentes ele passou até cair no grupo de whatsapp da Liga Feminina de Poker e sair do ar 24 horas depois. Confira a timeline aqui. A partir de então, as mulheres do poker, jogadoras e profissionais da indústria começaram a se manifestar, seguidas pelos homens, mídia e entidades.

Mas por que, a despeito das investidas dos participantes de atenuarem as consequências, os trechos alastraram como fogo no pavio?

Porque era a hora.

Porque estava demorando para chegar no poker demonstrações públicas tão contumazes e inequívocas do machismo. E com milhares testemunhas. E vindas de pessoas com uma posição relevante no poker, respeitadas no jogo e fora dele, pessoal e intelectualmente. E com a grande sorte de não termos nenhuma mulher pessoalmente envolvida, mas todas ao mesmo tempo.

A misoginia estava escancarada em trívias como identificar qual atividade humana que a mulher realiza melhor que o homem e as respostas foram de “nenhuma” a “modelo”, passando por uma série de argumentações cujos fundamentos eram meramente sexistas. Um dos participantes chegou a replicar que discordava da afirmação de que não há nenhuma atividade humana que a mulher desempenhe melhor que o homem.

A esperança de que alguém fosse contrapor a aberração durou pouco. Passaram então a debater uma série de percepções individuais como “mulher é melhor em produção, em organização, em atendimento e é muito ruim em tecnologia”, nenhuma estatística foi apresentada e, ainda que eventualmente seja verdade, não houve uma elaboração sequer acerca da construção social, da dupla jornada, do massacre histórico e nem sequer das diferenças biológicas para além do “instinto” gestacional, esta última tida como dogma máximo da discussão. Elaboraram ainda sobre a superioridade do homem no quesito genialidade, desafiando a audiência a citar mulheres que tenham superado o homem na arquitetura, na profissão de chef de cozinha e no ballet.

Quantificar ou qualificar mulheres e homens nas diversas profissões não é uma atitude machista. Apinham-se pesquisas acerca da presença feminina, elas representam 37% dos cargos de direção e gerência, mas a participação vai caindo conforme o nível hierárquico, no topo, elas representam apenas 10% nos comitês executivos de grandes empresas. Provavelmente há um menor número de mulheres mundialmente “reconhecidas” nas atividades mais valorizadas da sociedade mesmo. Aliás, seria útil que mais pessoas falassem sobre isso, quanto mais falarem, melhor. Machismo neste caso é ignorar os fatores que geram essas diferenças, emitindo opiniões que visam a manutenção dessas desigualdades e da hierarquia entre os gêneros, como por exemplo, arrebanhar as mulheres no que elas fazem de melhor, sugestão dada por um dos debatedores em questão, depois de estabelecer essa ordenação subjetiva de valor.

A fixação do grupo em credenciar à gravidez todas as diferenças comportamentais e de oportunidades entre mulheres e homens foi uma coisa assustadora. Na tese de um dos participantes, “a gravidez atrasa muito a mulher, e nem é questão de o homem não dividir tarefas, nem nada, mas ela fica grávida, fica oito meses que nem uma pata, sem conseguir andar direito”. O outro completa que essa diferenciação começa até mesmo antes da gravidez, a mulher seria menos predisposta a assumir riscos porque engravida.

É possível concordar com a tese de que a gravidez atrasa a mulher, mas o motivo é muito mais por construção social do que por biologia, ao contrário do que o time insistia em firmar. A mulher arca sozinha com as sanções de uma sociedade que exige filhos, mas a pune por tê-los. Esta é a razão.

Depois de todos os participantes parecem concordar que a gravidez atrapalha a mulher, um deles nega as diferenças de salário entre os gêneros e, neste ponto, não é preciso nem argumentação, porque uma constatação anula a outra automaticamente.

O grupo se animou bastante no tema das gostosas do poker, com o mesmo entusiasmo das impressões transmitidas com ares de pesquisa científica, debateram sobre elas serem gostosas mesmo ou só serem gostosas por causa da escassez de mulheres no jogo.

Diversas denúncias começaram a sair da gaveta. Relatos de assédio de todo tipo começaram a surgir. Jogadoras, dealers e profissionais passaram a contar os episódios e encorajaram-se a denunciar. A indústria do poker está sendo chamada a desenvolver instrumentos para identificar e punir o assédio e minimizar os efeitos dele sobre a mulher.

É uma possibilidade ímpar de evolução. O poker sempre trabalhou com o preconceito social, os jogadores de ontem, mais do que os de hoje, sabem muito bem o poder destrutivo de julgamentos equivocados acerca da decisão de se dedicar ao poker. Imputar outros tantos à mulher que está ou deseja ingressar nesse universo tão apaixonante é de uma perversidade sem tamanho. Jogue honradamente.

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