COMPARTILHAR
André Akkari - MSOP
André Akkari - MSOP

Para a tristeza da comunidade latino-americana do poker, a primeira edição do MSOP (Mexican Series of Poker) foi cancelada, deixando um gosto amargo em um evento que prometia ser histórico. Presente no Iberostar Paraiso Maya para jogar o torneio, o craque brasileiro André Akkari foi um que lamentou bastante a situação. Inscrito no Super High Roller, ele já estava entre os líderes em fichas, mas esse não foi o fator principal pela tristeza.

Mesmo com anos viajando pelo mundo e jogando poker em diversos países, Akkari viu de perto o potencial do poker ao vivo no México. O PokerStars Team Pro chegar a classificar o evento como tendo uma “estrutura perfeita”, destacando a organização do salão e também a beleza do gigantesco resort onde seria realizado o MSOP. O brasileiro afirmou que, resolvidos os problemas com o governo, o evento “poderia muito bem ser parte do circuito mundial de forma contundente, poderia ter um evento como o PCA lá dentro”.

Apesar da decepção com o cancelamento do evento da ADN (Asociación Deportiva Nacional de Poker), uma situação assim já não afeta mais tanto o profissional, que foi parte integrante da luta no Brasil para que o poker fosse considerado um esporte da mente. Assim como outros profissionais brasileiros, Akkari atuou, junto com a CBTH, no engajamento e mobilização dos amantes do jogo nessa batalha. Por isso, não falta experiência com torneios cancelados pelo governo.

Andre Akkari - BSOP Brasília
Andre Akkari – BSOP Brasília

Em entrevista ao SuperPoker, ele falou sobre a estrutura do MSOP, a reação ao cancelamento do evento e as lições que a situação deve trazer para a comunidade mexicana.

Em pleno 2018, um evento grande de poker sendo cancelado. Como se sente sobre a situação?

Ao mesmo tempo em que me sinto terrível, a gente passou por tantas situações como essa no Brasil, que você cria meio uma casca assim, aprende a lidar com a situação. Não é tão triste como era no começo do poker no Brasil, quando aconteceu as primeiras vezes, que a gente ficava mega chocado e indignado porque as instituições não tinham o entendimento que a gente queria. A gente sofria com isso, mas hoje não sofremos mesmo, é parte do crescimento do esporte, toda atividade nova acaba passando por processos desse tipo. Continua sendo triste, continuo ficando chateado, não dá para ficar feliz. Agora isso tem que seguir o rumo, quase copiando o modelo brasileiro, que é de muito sucesso e referência no mundo inteiro, acho que seria uma boa alternativa.

Você já passou por situações similares no passado. Que lições o cancelamento do MSOP traz para outros eventos de poker pela América Latina?

São lições institucionais, de seriedade na organização. Não digo que o México não tenha isso, porque as pessoas envolvidas na ADN parecem ser mega comprometidas, mas não adianta só o comprometimento. Adianta uma linha de pensamento estratégica que coloque a associação deles em um patamar mais alto de convencimento de instituições, documentação, relacionamento com as pessoas que apitam nesse cenário. Acho que o modelo CBTH de honestidade, seriedade, abertura de contas, de imparcialidade, sendo seguido, é de sucesso, não tem como não ser, porque é o modelo perfeito na minha opinião. Então esses caras têm que fazer a mesma coisa, essa acho que é a lição, pegar um modelo perfeito de organização que toma conta do esporte e tentar aplicar o mais rápido que eles puderem, porque aí eles terão os melhores benefícios do crescimento do esporte no país, poderão ter suas empresas, suas atividades gerando emprego e tudo mais. Paralelo a isso tem a parte do povo, do atleta, do adepto. Eles têm que fazer uma lição de engajamento, quanto mais eles conseguirem movimentar pessoas e mobilizar, mais o trabalho da instituição vai ser reconhecido, que é o que a gente fez aqui no Brasil.

Andre Akkari - BSOP Brasília
Andre Akkari – BSOP Brasília

Você participou da luta da CBTH na última década, o que a comunidade do poker no México deve fazer para que situações assim não aconteçam mais?

O que a gente fez no Brasil e alguns países também fizeram muito bem, é que movimentamos algumas poucas pessoas que estavam afim de movimentar muitas pessoas, de batalhar por aquilo que podia ser uma profissão. O meu caso é esse, eu vi no poker uma oportunidade de profissão, de crescimento pessoal, de construir meu patrimônio, a vida que eu queria ter, ou seja, viajar para onde eu queria, acordar e dormir fazendo o que eu gosto. Eu tive esse tesão e sabia que para eu poder manter essa atividade, eu tinha que não só promover o poker, mas também a validação do poker como esporte e jogo de habilidade. Eu dediquei boa parte dos meus dias a isso, às vezes perdendo hora de conhecimento técnico, hora com a minha família, e não só eu, outros jogadores também, então quando isso acontece você acaba mobilizando exponencialmente, viralizando uma mensagem que é positiva para o esporte. Eles têm que fazer a mesma coisa, as pessoas que têm representatividade dentro do poker do México precisam ter a mesma intenção e seguir a mesma fórmula de sucesso. Caras como [José Manuel] Nadal, Angel [Guillen], conseguem movimentar um grande grupo de pessoas se se engajarem dentro de uma causa. É uma causa que não é só financeira, só profissional, é uma causa natural de algo que o ser humano gosta de fazer e quer ter liberdade para praticar, disso nascem todas as coisas. A gente tem isso no Brasil, Europa, Estados Unidos, em vários países onde essas coisas aconteceram, todo mundo se uniu e promoveu alguns ícones que batalharam em prol da atividade. Se eles tiverem isso também, é um bom caminho, é parte do sucesso do poker nos próximos anos no México.

Apesar do cancelamento, o que achou organização do evento durante as horas que jogou o Super High Roller?

Fora essa parte do problema, eu achei sensacional. Não só o salão, como o hotel e a organização, poderia muito bem ser parte do circuito mundial de forma contundente. Poderia ter um evento como o PCA lá dentro, naquele hotel, com aquele estrutura. Estava muito bonito, a comunicação visual muito top, salão grande, espaçoso, as mesas não ficavam coladas umas nas outras, estrutura de palco, iluminação, ar condicionado perfeito, o hotel é fabuloso, numa praia incrível, achei tudo irado. Eu não tenho porque puxar o saco dos caras, estou falando realmente porque quando cheguei lá me espantou. Isso, na verdade, foi o que mais me deixou triste, porque você vê tudo isso sendo montado, uma estrutura perfeita, e não pode jogar. Eu comecei jogando o Super High Roller, estava entre os líderes e de repente acontece uma parada dessa, muito ruim. Mas acho que arredondando as pontas que precisam ser arredondadas, eles têm tudo para ser um dos maiores eventos do mundo, na minha opinião. É um lugar muito atrativo para o estrangeiro visitar, não é simplesmente hotel, quarto e poker room, tem um ambiente que quando você não está jogando, ou a família está junto com você, pode desfrutar de um negócio fenomenal. Nem parece que está em um evento de poker, aquele evento profissional, carrancudo, é muito além disso. Todos os lugares do mundo onde o poker chegou nesse ponto, ele faz sucesso, porque você pode ir com a família, levar amigos e tudo mais, as pessoas querem passear, fazer turismo, achei fantástico. A fórmula está certa, agora precisam brigar institucionalmente lá, esse é o caminho. Mas foi um prazer ir para lá, mesmo ficando poucos dias, ter visitado, conhecido e visto esse capacidade que eles têm de organizar um evento.