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É preciso certa dedicação para encontrar Ronaldo em um torneio de poker. É preciso olhar, olhar e olhar até perceber um homem forte e concentrado de trás de seus óculos de grau em uma mesa silenciosa do PCA – um torneio de US$ 10.300 para entrar que tem mais 800 jogadores em busca de um pouco de uma premiação milionária.

Com 38 anos, ele é, para muitos da molecada que ama esse jogo, o melhor jogador de futebol que eles viram na ativa. Mas para tantos, também, ele só um garoto propaganda do PokerStars – maior site de poker do mundo que promove torneios ao vivo, como o PCA, que acontece nas Bahamas. Quase sempre em uma mesa televisionada em transmissões de torneios dentro e fora do Brasil, o fenômeno tem seu jogo exposto, seus erros comentados, e seus acertos questionados.

Como sempre desde os 16 anos, ele é centro das atenções, alvo de especulação e eventual fonte polêmica. E no poker não seria diferente: ainda com fichas para jogar, Ronaldo largou dois torneios grandes nos últimos dois meses – o campeonato brasileiro, em dezembro, e o latino, um dia antes do PCA.

No brasileiro, o jogador não voltou a campo no Dia 2, no latino, levantou, foi embora, e deixou as fichas pingando até secarem por completo.

– (No Millions) Eu tinha um compromisso de algum tempo antes, que era em Paris, uma reunião muito importante. Uma pena, porque eu estava bem, tava chip leader (da mesa), tava bombando, e mais do que para qualquer outra pessoa que tenha se sentido ofendida de eu ter saído, pra mim foi muito ruim ter saído. Anteontem, foi que começou essa alergia, eu comecei a me sentir mal, me coçando o dia todo, e aí eu decidi sair para tentar melhorar e jogar o Main Event (do PCA).

Mesmo com uma boa justificativa, a leitura de muitos fãs do jogo é que Ronaldo não está muito aí. Os deslizes nos fundamentos do tamanho das apostas e mesmo a desistência de jogadas já fizeram praticantes entenderem que Ronaldo queria entregar o jogo e fazer algo que lhe divertisse mais. "Afinal, ele gosta de dinheiro, não de poker".

Mas é nesta hora que Ronaldo ganha a aposta – na linguagem do pokr, ele "puxa o pote". Depois de quase fazer dinheiro no BSOP (Brazilian Series of Poker) Millions, condição possível apenas quando o jogador sobrevive entre cerca de 10% dos que começaram a jogar, ele ficou gigante em fichas no Dia 2 do PCA – o que significa metade do caminho em um torneio de três dias. 

Ronaldo gosta de competir, seja no futebol, no golfe ou no poker. E em todos eles Ronaldo é craque. Sabe o desequilíbrio que provoca.

– Quando estou na mesa as pessoas fazem aposta pra mim. Pra ganhar e me tirar da mesa… e isso eu posso tirar até uma certa vantagem, sendo que eu vejo minha mão e decido o que fazer depois. Tem uma surpresa inicial quando eu sento na mesa, mas depois o jogo come solto e cada um se preocupa com seu jogo. Eu posso perder uma mão ou outra por inexperiência mesmo… quando tem um profissional na mesa. É mais difícil, mas não é impossível.

 

Não é impossível porque trata-se um homem que aguenta a pressão. Foi o principal jogador de uma das seleções mais importantes do futebol, foi o craque dos melhores clubes europeus, conseguiu "desaguar" diante de câmeras de todo o mundo no meio do jogo olímpico e quase foi aposentado pelo joelho. As experiências de vida dentro e fora dos gramados podem compensar um eventual falta de intimidade com o baralho – afinal, Ronaldo não dá um tell, as "confissões" corporais feitas por jogadores de poker durante o jogo.

– Fico olhando os oponentes e eu procuro aprender de cada experiência.

Eleito melhor jogador do mundo em 1996, é sabido que o ex-craque treinava pênaltis até o apagar das luzes do ginásio para atingir a alta performance. Ao que tudo indica, ele também busca seu melhor no poker, já que está cada vez evidente nos torneios mundiais e cada vez mais preparado.

Pior ou melhor que seus oponentes, ele oferece um metagame nada fácil aos fãs do esporte, pois há uma imensa diferença entre ele e o que se sabe dele e suas jogadas, que estão, sem dúvida, muito além de um simples contrato de marketing.