A história da World Series of Poker (WSOP) guarda episódios curiosos, mas poucos envolvem uma situação tão controversa quanto a de Vera Richmond. Em 1982, ela se tornou a primeira mulher a conquistar um bracelete em um torneio aberto da série. Entretanto, seu nome chegou a desaparecer dos registros oficiais da competição.
A norte-americana alcançou o feito ao vencer o US$ 1.000 Limit Ace-to-Five Draw. Na ocasião, superou um field de 77 entradas e recebeu US$ 38.500 pelo título. Além disso, a conquista permanece como sua única premiação registrada no banco de dados do The Hendon Mob.

Apesar da importância histórica, Richmond não conquistou a simpatia de todos nos bastidores. Segundo Linda Johnson, terceira mulher a vencer um evento aberto da WSOP, a personalidade forte da campeã provocou conflitos com jogadores e dirigentes.
Anos depois, Johnson revelou detalhes da polêmica durante uma participação no podcast The Grid, de Jennifer Shahade. Na entrevista, contou que questionou os responsáveis pela WSOP sobre a ausência de Richmond nos registros históricos.
Polêmica marcou conquista histórica

De acordo com Johnson, os dirigentes justificaram a exclusão com uma ofensa direcionada à personalidade da campeã. A resposta, entretanto, provocou uma reação imediata da jogadora.
“Existem muitos homens babacas que ganharam braceletes e estão nos registros. Vocês precisam colocar o nome dela lá”, declarou Johnson ao recordar a conversa.
Além disso, Johnson reconheceu que Richmond tinha um comportamento difícil. Entretanto, ressaltou que isso não justificava apagar uma conquista legítima da história do poker.
“Ela xingava muito, tinha uma boca de marinheiro. Tinha bastante dinheiro e não aceitava desaforos dos homens”, contou.
Por outro lado, Perry Green, que terminou aquele torneio na quarta colocação, apresentou uma visão diferente. Atualmente com 90 anos, o veterano relembrou a personalidade de Richmond e as dificuldades que ela enfrentava em um ambiente dominado por homens.
“Ela se enxergava como alguém de fora, uma mulher sem reconhecimento por sua habilidade. Como competia em um grupo predominantemente masculino, precisava agir de maneira mais dura do que realmente era”, explicou Green.
O jogador também afirmou que não guardava ressentimentos da campeã. Além disso, recordou que o marido de Richmond acompanhava suas partidas e torcia discretamente por ela.
Bracelete também gerou disputa

Curiosamente, Richmond enfrentou outro obstáculo para receber o símbolo de sua conquista. Em 1982, a WSOP entregava relógios aos campeões no lugar dos tradicionais braceletes. Entretanto, a jogadora queria especificamente a joia.
Diante da insistência, a organização abriu uma exceção. Segundo um registro da própria WSOP na época, Richmond tinha o coração voltado para um bracelete e, por isso, receberia um tratamento especial.
Depois daquela vitória, a norte-americana não voltou a aparecer entre os premiados nos registros do Hendon Mob. Johnson também afirmou que perdeu contato com ela e acreditava que Richmond havia falecido. Na época do título, a campeã já tinha idade avançada e utilizava uma cadeira de rodas.
Enquanto isso, o poker precisou esperar outros 14 anos para testemunhar uma nova conquista feminina em um evento aberto da WSOP. Em 1996, Barbara Enright se tornou a segunda mulher a alcançar o feito.
Por fim, a intervenção de Linda Johnson garantiu o retorno do nome de Richmond aos registros oficiais. Dessa forma, a campeã recuperou seu lugar na história da WSOP, não apenas pelo bracelete de 1982, mas também por abrir caminho para outras mulheres no circuito mundial.









