Quem acompanha as transmissões de poker na internet já deve ter se deparado com o canal “Poker Resistência”. Praticamente todos os dias, Hélvio Queiroz surge no youtube transmitindo um torneio de poker ao vivo. Na maioria das vezes, a “live” é feita nas competições ou mesas de “cash-game” presencial, mas ele também transmite os jogos online.
Hélvio é natural de Recife (PE), tem 34 anos, é casado e tem um filho. Há 3 anos ele se mudou para São Paulo (SP), e ficou encantado com as oportunidades de poker na cidade. O sotaque típico dos pernambucanos ainda faz parte da fala deste jogador que se comunica muito bem, tanto nas transmissões, quanto na entrevista que concedeu ao portal SuperPoker.
A aparência de uma pessoa estudiosa, com óculos de aros grossos e pretos, traduz exatamente o perfil dele. Formado em administração, Hélvio trabalhou por 18 anos no mundo coorporativo e foi justamente uma frustração neste segmento que levou ele a se dedicar com exclusividade ao poker.
Confira a entrevista completa com Hélvio Queiroz:
SuperPoker: Qual a sua formação e qual era o seu trabalho antes do poker?
Hélvio Queiroz: Eu sou administrador, especialista em finanças, me formei e me especializei nessa área. Fui contratado para vir morar em São Paulo e trabalhar na maior empresa do Brasil, o maior grupo do Brasil, a J&F Investimentos, que é dona do conglomerado JBS e outras empresas.
Eu fui contratado para um cargo de chefia, muito bom, e vim para São Paulo em 2022 com toda a minha família.

SP: Como você encara o poker antes de ser profissional?
HQ: Antigamente eu era um jogador recreativo, jogava Omaha e na maioria das vezes “cash-game”, com os amigos, lá em Recife. Só que em São Paulo você chega e o mundo do poker te abraça de um jeito fora do comum, né.
São Paulo respira poker, vários clubes por aqui funcionam, tem jogo o tempo inteiro, por isso acabei respirando muito poker durante esse tempo.

SP: Como foi a decisão de se profissionalizar no jogo?
HQ: A decisão de virar profissional no poker veio de uma série de fatores, dentro do trabalho, que me fizeram decidir. Eu sou fluentemente espanhol, por isso fui transferido para montar uma nova operação financeira, abrir empresas em países como a Áustria e a China, coordenar toda essa área.
Mas no dia do meu aniversário, depois de tantas coisas que a gente conseguiu criar, a vaga que eu tanto almejava foi anunciada para uma outra pessoa que tinha mais tempo de casa no grupo, porém, ainda estava conhecendo a operação.Mas no dia do meu aniversário, depois de tantas coisas que a gente conseguiu criar, a vaga que eu tanto almejava foi anunciada para uma outra pessoa que tinha mais tempo de casa no grupo, porém, ainda estava conhecendo a operação.
Aquilo me frustrou muito e me fez perceber que não era aquilo que eu queria, passar mais de dez, quinze anos dentro de uma empresa para ter o reconhecimento e estar me sentindo feliz no ambiente.
Neste dia eu percebi que para alcançar novos voos eu teria que me sacrificar, assim como essas pessoas que lá passam dez, quinze anos, e não era isso que eu queria, porque eu estava muito infeliz trabalhando dessa maneira.
Apesar de ter conquistado muito, ser administrador de empresa especialista em finanças, ocupar um cargo como esse de grande responsabilidade, cuidando de empresas multinacionais… Era uma grande experiência e um salário muito bom, mas eu não conseguia me ver feliz ali por muito tempo.

SP: E como foi a transição do mundo coorporativo para as mesas de poker?
HQ: Eu ainda passei algum tempo treinando outras pessoas, para só então me desvencilhar totalmente da empresa. Muitos pediram para eu continuar, mas eu percebi que precisava tentar a minha vida no poker.
Eu já tinha esse sonho há muito tempo, mas entre os grandes salários que eu recebia e a vida incerta que o poker proporciona, sempre me fizeram deixar esse projeto em segundo plano, jogando muito mais para me divertir do que para ganhar dinheiro, algo inverso ao que faço hoje.
Depois dessa decisão, eu resolvi abrir um canal no youtuber – eu não era uma pessoa das redes sociais, muito pelo contrário, era bem “low profile”, por conta das minhas atribuições na área de finanças, mas abri as minhas redes sociais.
Eu sabia que apenas jogar poker não seria algo lucrativo, por isso passei a fazer “lives”, já que percebi que muitos que estavam neste cenário – principalmente presencial – não sabiam explicar o jogo. Passei a me dedicar, estudar, entrei para um time na época e passei a transmitir as minhas disputas.

SP: Como foi a aceitação do público nas transmissões?
HQ: Muita gente abraçou a minha causa, me deu muito apoio. Eu fiz mesa final duas vezes do CPH, o campeonato paulista de poker. Em dezembro fiquei em oitavo lugar, e em janeiro fui o quinto colocado. Além disso, eu faço várias mesas finais presenciais, o pessoal sempre acompanha e é isso que tem me mantido financeiramente.

SP: Já teve algum problema com os outros jogadores em transmitir os torneios?
HQ: Em novembro eu estava jogando o CPH, transmitindo como sempre faço, mas um cara estava ao meu lado e falou que já tinha jogado em Las Vegas, no mundo inteiro, e nunca tinha visto esse tipo de coisa. Ele achava que eu estava me beneficiando por estar com uma câmera filmando o jogo.
Ele começou a assistir a “live” junto e falar para as pessoas da mesa quais cartas eu tinha. Aí acabou que um outro cara, do lado dele, também entrou nessa pilha e passou a reclamar. Só que todos já me conhecem, sabem que eu faço a transmissão, nunca atrapalho ninguém.
A situação acabou sendo amenizada, mas os caras continuaram vendo a minha “live”. E tem uma situação bem interessante nesta história que eu recebo AA do UTG, faço um mini-raise, a ação chega em um dos caras que era o small-blind e ele paga, o big blind também paga, que era o outro cara que acompanhava a transmissão.
O flop é super seco, 335, e o small dá all-in vendo a minha “live”, o big desiste e eu pago. Ele tem 77 e acaba sendo eliminado, eu falo pra ele: ‘Bicho, muita incompetência, você está vendo a minha “live” e ainda dá all-in na minha cabeça?’ São poucas pessoas, mas as vezes tem gente que acha ruim eu fazer transmissão.

SP: Porque o canal se chama poker resistência?
HQ: O canal poker resistência veio por conta de um amigo de Recife, Fernando “Regular”. Nós jogávamos “cash-game”, virávamos a noite e ele sempre falava: ‘Poker resistência, aqui resiste!’ E isso acontece muito nas minhas “lives’, sempre que estou em retas finais, onde é normal estar “short-stack”, pegou esse bordão, a galera manda um “Poker Resistência”, já que reflete o meu estilo de jogo, bem “tight”.
SP: Quais são os seus pontos fortes no poker?
HQ: Eu sou um jogador que observo muito na mesa, fico bem atento as ações dos adversários, os padrões deles. No jogo presencial, eles acabam dando muitos “tells” da força das mãos. Além disso, sou bem “tight”, escolho mãos melhores para jogar e sempre em posição. Também tenho muita paciência quando estou com poucas fichas, eu sei pilotar bem “short stack”.
SP: E os pontos fracos?
HQ: Eu preciso me acostumar mais com os torneios KO. Hoje essa é uma modalidade que cresce muito no online, onde realmente está o dinheiro. Atualmente eu acabo disputando mais os chamados torneios “vanilla”, os regulares, onde o ICM conta muito.
Outro ponto fraco é que quando eu estou jogando presencial, estou fazendo “live”, então acabo perdendo um pouco da concentração. Perco cerca de 20% da concentração, respondendo o “chat”, conversando com a galera, além de estar com o celular na frente filmando tudo, né?

SP: Como você estuda o poker?
HQ: O poker é um jogo de informações, os softwares que hoje existem estão para auxiliar todos. Não só no sentido de fazer “review” das mãos, mas também para saber os momentos de dar all-in, pagar uma aposta, ou ainda desistir.
São vários os aplicativos que é possível usar, eu uso os mais conhecidos como “GTO Wizard”, “icmizer”, no entanto existem outros pontos que todos precisam estudar. Acredito que entender sobre motivação e “mind set” do jogador de poker é crucial para quem está começando.
Depois disso você segue para entender outros assuntos, como “pot odds”, onde a gente calcula se vale a pena entrar naquela mão, se vale a pena colocar dinheiro naquele pote para ver turn e river, ver o flop. É necessário aprender os “ranges” pré-flop, as mãos que você abrir, ou desistir, as posições.
Tem muita informação na internet gratuita, hoje eu tenho vários materiais salvos, os aplicativos que eu utilizo, já sei o caminho de estudar. Mas para quem está começando, basta seguir esses passos que eu falei.
SP: Para finalizar Hélvio, quem você gostaria de agradecer?
HQ: Queria agradecer todos que me acompanham, meus amigos do “chat”, a galera do poker resistência, sem falar do apoio importantíssimo da minha esposa nessa transição. Imagina, você tem um bom salário em uma empresa muito boa e parte para esse mundo incerto do poker. Por isso, preciso agradecer a minha família, principalmente a minha esposa que me apoia muito.